Redes de jovens comunicadores para combater a criminalidade na Amazônia
No Acre, o jornalismo comunitário iniciou uma transformação entre os jovens: oferece a eles um modo de vida alternativo e abre a possibilidade de ter uma nova visão de mundo.

Victor Manoel Figueira Castro, El Pais, Espanha
Acre (Brasil) - 13 de outubro de 2025
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“Os povos indígenas permanecem presentes neste mundo não porque foram excluídos, mas porque escaparam”, escreve o intelectual brasileiro Ailton Krenak em A Vida Não Serve . Essa frase ressoa no estado brasileiro do Acre. Com 35 terras indígenas (TIs) habitadas por 15 povos de três famílias linguísticas diferentes (Pano, Aruak e Arawá), o território abriga 3,82% dessa população. No entanto, esse povo convive atualmente com dados alarmantes de violência e criminalização.
Dados do Anuário de Segurança Pública de 2024 e do Atlas da Violência revelam que a presença de indígenas no sistema prisional quintuplicou entre 2005 e 2023, enquanto a taxa de homicídios entre indígenas chegou a 43,9 por 100 mil habitantes em 2022. Tudo isso em um território que se tornou rota de tráfico de drogas na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia na última década.
“Além da organização criminosa que invade os territórios indígenas, também observamos a cooptação de jovens dessas comunidades”, alerta Bernardo Fiterman Albano, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Acre (MPAC). Esse aumento da atividade criminosa dessas facções é acompanhado pela criação de frentes responsáveis pela gestão de cada território. Para muitos jovens indígenas, o escudo contra essa realidade é o jornalismo comunitário, que lhes oferece uma forma alternativa de vida e abre a possibilidade de uma nova visão de mundo.

Um rastro de sangue
Para compreender o presente, é necessário olhar para o passado. O movimento indígena no Brasil se fortaleceu nas décadas de 1970 e 1980 com a fundação da UNI (União das Nações Indígenas), liderada por Krenak. Esse movimento participou da Assembleia Constituinte de 1988, conseguindo a inclusão do Capítulo VIII - Dos Índios - na Constituição Federal. Este artigo reconhece os direitos dos povos indígenas às terras que tradicionalmente ocupam, garantindo a demarcação , o uso exclusivo dos recursos e o respeito à sua organização social, costumes, línguas e tradições.
A Comissão Indígena do Acre (CPI-AC), fundada em 1979, também teve papel fundamental na formação de lideranças. É aí que começa a trajetória de Samsara Nukini, da aldeia Panã, no município de Mâncio Lima. Mãe divorciada de três filhos e sobrevivente de um relacionamento violento, essa mulher de 30 anos conquistou uma bolsa de estudos na área de comunicação da CPI-Acre em 2023: “Não estamos aqui só pela violência e pela nossa resistência. Somos canto e dança”, afirma. Para ela, a conquista da bolsa de comunicação significou superar um cenário de violência e desigualdade para se tornar uma das vozes mais proeminentes do feminismo indígena no Acre. Em 2024, conquistou o Prêmio Chico Mendes de Resistência na categoria liderança jovem.
Bolsas como a que Nukini conquistou são concedidas anualmente por meio do projeto criado pela Rede de Comunidades Indígenas do Acre (RCIA), que já beneficiou mais de 30 estudantes desde 2021 com o objetivo de resgatar a liderança das comunidades indígenas sobre seus territórios. "A organização criminosa compete com as lideranças tradicionais. E essa figura é desafiada pela 'disciplina' da facção. Isso causa um desequilíbrio, uma ruptura no sistema como um todo", explica o promotor de Justiça do Gaeco, Fiterman. "Temos assistido à consolidação dessas rotas de tráfico de drogas pelas facções", afirma. Em maio de 2024, 22 operações da Força Nacional estavam ativas em terras indígenas no Brasil.

Durante uma viagem à Terra Indígena Apurinã, na região de Boca do Acre, em 2021, o estudante de história Ximery Apurinã se deparou com uma cruz na cerca do quintal de um vizinho. Ela marcava o local onde ele havia sido forçado a enterrar sua filha após ter o acesso ao cemitério indígena negado devido a uma disputa territorial. "A história me fez entender essa tensão de uma forma muito ampla, não apenas em relação à história dos povos, mas à história da humanidade", diz o estudante.
Rapé e resistência
“Eu quero viver”, disse o ambientalista Chico Mendes antes de ser assassinado em 1988, após assistir ao final da primeira versão da novela Vale Tudo , famoso por debater se vale a pena ser honesto no Brasil, ciente de que “enterros simbólicos não salvam a Amazônia”. Em 2025, a deputada indígena Célia Xakriabá foi agredida pela polícia durante a Marcha do Acampamento Terra Livre, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a maior mobilização indígena do país, repetida anualmente desde 2004 em Brasília. É mais uma evidência de que a violência não saiu das terras amazônicas.
Durante a elaboração deste relatório, buscamos reunir depoimentos de indígenas que vivenciam a realidade da violência em suas aldeias. No entanto, o medo de represálias silencia as comunidades. Unhepa Nukini, especialista em comunicação da Comunidade Nukini, da aldeia Isã, próxima ao Parque Nacional da Serra do Divisor, na região do Juruá, na margem esquerda do Rio Môa, lamenta a situação. "A comunicação chega ao território como uma arma. Muitas vezes, somos ameaçados não só por invasores, mas também pelo próprio sistema de governo."
A América Futura entrou em contato com Francisca Arara, Secretária dos Povos Indígenas do Estado do Acre, mas não obteve resposta. "A comunicação tem sido usada dentro da nossa cultura para defender nosso modo de vida, nossa espiritualidade, nossos costumes, nossa rotina, nossa educação e nossa saúde", afirma.

Nukini também faz parte do coletivo RCIA, representado por 16 jovens de sete aldeias (Puyanawa, Yawanawá, Huni Kuĩ, Nukini, Manxineru, Apurinã e Shanenawá). Posteriormente, outros coletivos surgiram, como o Tetepawa Comunica. Samsara Nukini comenta como, por exemplo, o uso do rapé (preparado feito com folhas de tabaco) em espaços públicos se tornou um ato de resistência, devido ao apagamento histórico que ocorreu: “É algo grandioso, gratificante, que sinto lá no fundo, e eu sou de onde nasci.” Ela acrescenta: “Temos que quebrar esses rótulos que a sociedade nos impõe, que só nos dá visibilidade quando há invasão ou exploração, ou quando a educação e a saúde estão em situação precária.”
Até 2021, Nukini usava o nome "Cleiton", registrado no registro civil numa época em que os órgãos governamentais não permitiam o uso de nomes indígenas em certidões de nascimento. Hoje, ele argumenta que o jornalismo tradicional não tem a coragem de se aprofundar em questões sensíveis, como o aumento da criminalidade nas aldeias: "Assumo essa responsabilidade, mas também há uma espiritualidade que me guia, uma espiritualidade que vem da natureza", observa. "Precisamos que espaços como jornais e veículos de comunicação se abram para mostrar a cultura. Que tenhamos a coragem de mostrar uma pintura de txai (companheiro), que entendamos a importância dos kenês (cantos), que saibamos o que as pessoas dizem em suas línguas..."
Ximery diz que quer recuperar o que esse processo de apagamento levou: “Estamos caminhando para o fim do mundo. Estou do lado da proteção ambiental, do lado dos povos indígenas. Qualquer pessoa que queira se juntar à luta, seja branca, de qualquer cor, religiosa ou não, é bem-vinda. Acima de tudo, se o fizer de coração.”
Nukini nos lembra que o Brasil é um território indígena e que é necessário "que a sociedade se una e pense no bem-estar do planeta Terra". Isso tanto para poder continuar respirando no futuro quanto para proteger essa população no presente e evitar que os erros do passado se repitam.






