O diretor do EL PAÍS, em conversa com leitores: "Precisamos chegar aos jovens em seus canais e falar com eles na linguagem deles".

“Somos ativos no jornalismo”, diz Martínez Ahrens em um auditório com mais de 200 pessoas em Barcelona.
Encontro | Jan Martínez Ahrens, com assinantes de Barcelona
O diretor, nomeado há quatro meses, abriu o debate relembrando os valores que regem o EL PAÍS — “democracia, diálogo, consenso” —, que não mudaram em seu meio século de história. “Nossa tradição não permite mudanças nem mudanças bruscas.” Entre essas obrigações, ele defendeu a necessidade de retratar a complexa situação atual, na qual “o Vox é a principal força política para pessoas com menos de 35 anos”. “Devemos enfrentar o fenômeno da extrema direita; devemos conversar com eles, com as precauções do jornalismo sério”, argumentou o diretor, que insistiu que “não se trata de dar palanque a quem gera discurso de ódio”, mas sim de não esconder a realidade.
Em resposta às preocupações dos assinantes sobre a estratégia para atingir esses jovens, Martínez Ahrens afirmou que essa também é uma preocupação da direção do jornal. "Nunca fomos um jornal jovem", admitiu o diretor, mas observou que o EL PAÍS tem três milhões de assinantes no YouTube, o que o torna líder na Europa. "As novas redes geram respostas antes que elas sejam solicitadas e fecham o universo da diversidade ", analisou, referindo-se ao magma em que operam. E defendeu "estar em todas as plataformas" e se esforçar para falar com eles nas "novas linguagens" usadas pelos mais jovens, em um mundo onde "há uma ligação entre desinformação e radicalização". "Já ouvi jovens de 20 anos dizerem nas minhas aulas: 'a democracia não resolve meus problemas'", lamentou um professor universitário que participou da reunião. Outro assinante se referiu ao "desengajamento" dos jovens. "A sociedade violou o fundamento do contrato social: se você cumprir, se trabalhar, se se esforçar, será recompensado", resumiu Martínez Ahrens.
O diretor do EL PAÍS alertou que a nova "era da desinformação em massa" veio para ficar. Mas também destacou a existência de "veículos de comunicação cada vez mais fortes e sérios, com audiências maiores do que nunca", como os mais de 70 milhões de leitores diários do EL PAÍS em todas as suas edições impressa e online. Nesse contexto, a inteligência artificial é um dos principais desafios. "O primeiro é a transparência e, depois, também a construção de nossas bases tecnológicas como veículo de comunicação", esclareceu, referindo-se ao uso "muito limitado" de IA pelo jornal.
As linhas vermelhas, no entanto, permanecem muito claras. "Não estamos aqui para satisfazer a necessidade de dopamina do público, mas para informar", respondeu a um dos assinantes, que apontou a nova lógica consumista da rolagem . O editor observou que o jornal gera mais notícias com mais rapidez, mas defendeu o princípio básico de oferecer "informação boa e bem organizada" aos leitores. Uma defesa dos valores clássicos da profissão. "Não acreditamos em cliques por cliques", repetiu em seu discurso, no qual alertou que "a isca de cliques é um universo vazio", no qual as notícias são abertas, mas não lidas. O editor do EL PAÍS insistiu que seu objetivo é criar uma comunidade de leitores críticos.
O debate também abordou novas tendências que criticam um jornalismo pessimista e de notícias negativas. "Cuidado com essa ideia de que jornalistas noticiam demais; quando ouço isso, meus alertas disparam" , alertou o editor, referindo-se aos fundamentos da profissão: "Coisas ruins acontecem, e nosso dever é noticiá-las, e também nos sentirmos incomodados", insistiu, lembrando que retratar apenas "um admirável mundo novo" é o desejo de qualquer político. Apesar disso, o editor do EL PAÍS defendeu a necessidade de "saber noticiar, e noticiar bem", o mundo da cultura, da arte e da ciência. "Nosso dever é explicar o que os leitores querem, que é a verdade, e esse é um trabalho difícil", resumiu.
Nesse contexto, o debate também abordou os desafios da "prospecção" cultural, bem como da "prescrição" cultural. Abordou também a perspectiva do EL PAÍS como jornal global. "Precisamos fornecer mais informações sobre as Américas na Espanha", afirmou o diretor, como um de seus "esforços" para "levantar o olhar e ver o que está acontecendo do outro lado do Atlântico". O debate também incluiu assinantes preocupados com a cobertura da guerra em Gaza. "Consideramos a situação na Palestina terrível e a denunciamos diariamente", afirmou o diretor, elogiando o trabalho dos três editores alocados na região.
“Não somos membros de nenhum partido, de nenhum governo, nem damos cheque em branco a ninguém. Somos jornalistas”, insistiu Martínez Ahrens, abordando as críticas recorrentes ao EL PAÍS vindas de certos setores. Um debate em que o diretor enfatizou as grandes transformações pelas quais a mídia passou nos últimos anos, a ponto de lutar por sua sobrevivência. “Nas redações, estávamos com medo, houve demissões, houve demissões em massa, houve momentos em que vimos que nossa continuidade era incerta”, explicou. “Os assinantes foram nossa tábua de salvação diante de um modelo que entrou em colapso”, disse ele. “E justamente quando estávamos relativamente calmos e acomodados, navegando neste novo mundo com vento favorável, a IA apareceu, e não sabemos para onde ela nos levará”, concluiu.
Rebeca Carranco , El Pais, Espanha






