Manifesto pela Educomunicação na América Latina no 10º Educom (Encontro Brasileiro de Educomunicação)

Transformar a sociedade através do diálogo e da participação
Em um momento em que a América Latina enfrenta desafios sistêmicos como polarização política, criminalidade, violência, diversas formas de corrupção pública e privada, falta de participação cidadã e desigualdade social persistente, há uma necessidade crescente de um paradigma que articule educação, comunicação e cidadania como eixos transformadores. A educomunicação, como ponte entre educação e comunicação, é mais do que uma ferramenta; é uma abordagem estratégica para a construção de sociedades mais justas, críticas e participativas.
1. Educomunicação: Um imperativo para o empoderamento social
A educomunicação não se limita à aprendizagem técnica dos meios de comunicação, como afirmou Ismar de Oliveira no Manifesto da Educomunicação de A Coruña, de 1995. É um paradigma que busca empoderar indivíduos e comunidades por meio do exercício consciente e ativo da vida e das conexões relacionais entre as pessoas, em seus territórios e com a natureza. A partir daí, fomenta o diálogo na sociedade, a alfabetização crítica dos indivíduos, permitindo-lhes decifrar e analisar seu entorno e criar conteúdos que reflitam suas realidades e aspirações. Em um continente onde as redes e os meios digitais têm sido, por vezes, veículos de desinformação e polarização, a educomunicação oferece um caminho para democratizar a fala, a imagem, o acesso à informação e empoderar comunidades marginalizadas.
2. Desafios Regionais: Um Chamado à Ação
A América Latina enfrenta uma crise democrática multifacetada: polarização política que corrói o diálogo e alimenta o populismo; violência e criminalidade que enfraquecem as instituições e contaminam o clima social com medo crescente, o que impacta e limita a participação; desconfiança nas instituições devido aos altos níveis de corrupção nas esferas pública e privada; e exclusão social e desigualdade que perpetuam um sistema injusto.
A educomunicação se posiciona como uma abordagem abrangente e fundamental para abordar essas questões, promovendo relacionamentos honestos e proativos para o entendimento mútuo por meio de várias formas de empoderamento comunitário e alfabetização midiática, para promover transparência e responsabilidade em um contexto de diálogo cidadão.
3. Rumo a uma cidadania crítica e ativa
A educomunicação promove a formação de cidadãos conscientes de seu papel nas comunidades, críticos e participativos, capazes de: a) valorizar os vínculos comunitários e ambientais; b) questionar as mensagens midiáticas e sociais, tomando consciência das agendas por trás delas; c) participar ativamente da formulação de políticas públicas e projetos comunitários; e d) utilizar ferramentas tradicionais e digitais para gerar mudanças sociais significativas.
Nesse sentido, a educomunicação deve se adaptar aos contextos culturais e sociais locais, respeitando as diversas identidades e promovendo soluções inclusivas e sustentáveis.
4. Um paradigma transformador para a democracia
A educomunicação, como paradigma, disciplina e prática, propõe cinco linhas estratégicas para fortalecer a democracia na América Latina:
- Promover a educação cívica e a alfabetização midiática para criar cidadãos ativos e críticos.
- Fortalecer o diálogo e a deliberação como mecanismos para resolver problemas sociais, econômicos e ambientais.
- Promover a diversidade e a inclusão como valores fundamentais na política e na sociedade.
- Combater a desinformação e a propaganda por meio de comunicação transparente e baseada em evidências.
- Promova a participação cívica e a ética como pilares de uma democracia forte. Exija transparência e responsabilização para restaurar a confiança nas instituições.
A corrupção e a violência nos roubaram muito: vidas, recursos e confiança. Mas não podem nos privar da capacidade de nos organizar e lutar pela transformação da nossa realidade. A educomunicação é uma fonte de "integridade ativa", uma forma de expor a vida das comunidades diante da injustiça e empoderar os mais vulneráveis para que se tornem protagonistas de suas próprias histórias. Se o poder abusa do silêncio e favorece a manipulação, respondamos com mil vozes de esperança.
Cada meio de comunicação, cada tecnologia, cada espaço público pode ser um palco para a presença ativa das vozes da comunidade, fomentando o diálogo, a transparência e a responsabilização. Não podemos esperar mais: precisamos aproveitar esses espaços e colocá-los a serviço da verdade.
5. O papel das políticas e instituições públicas
Seguindo o apelo da tradição educomunicativa da América Latina, é essencial que governos e instituições educacionais e sociais adotem políticas públicas que integrem a educomunicação como parte essencial do sistema educacional e social. Isso inclui:
- A inclusão de programas educacionais e de alfabetização midiática em escolas e universidades.
- Promover e apoiar projetos comunitários que usem a educomunicação para fomentar o diálogo e a participação em vários aspectos da vida comunitária, incluindo administração ambiental, saúde, espiritualidade e diálogo para resolução de problemas.
- A criação de observatórios e centros que monitorem e promovam o uso ético das tecnologias digitais e da inteligência artificial.
6. O papel das organizações nacionais e regionais como catalisadoras da educomunicação para uma nova cidadania
Promover a criação de redes de Educomunicação e Cidadania, para que se posicionem como atores-chave na liderança dessa transformação (como a ABPeducom; CELAEC, SIGNIS ALC e as Universidades de S. Paulo e Javeriana, que possuem programas nesse sentido).
- Gerar uma rede de centros acadêmicos e profissionais que promovam agendas de pesquisa-ação em educomunicação.
- Capacitar líderes comunitários e jovens em práticas de comunicação educacional.
- Implementar projetos que promovam inclusão, equidade e sustentabilidade.
7. Rumo a uma comunicação humanística e transformadora da boa vida
A educomunicação não apenas responde aos desafios atuais, mas também antecipa os desafios do futuro, como a crescente influência da inteligência artificial e a digitalização da vida. Nesse contexto, é necessária uma visão humanista, com sensibilidade para o bem viver ou para uma vida plena e boa, como nos convidam os sábios dos povos indígenas do nosso continente, priorizando a dignidade, a justiça e o bem comum, integrando todos os setores da sociedade no esforço de construir uma América Latina mais humana, cívica e respeitadora da natureza.
O futuro não pode ser decidido por algoritmos ou interesses corporativos. Ele deve ser decidido por cidadãos empoderados que entendam a tecnologia como uma ferramenta de libertação, não de opressão. A educomunicação nos dá as chaves para navegar em um mundo digital cada vez mais complexo e construir uma relação ética com a inteligência artificial e as plataformas de mídia. Não basta nos adaptarmos às mudanças; precisamos ser inovadores para liderar os processos.
Convocamos os educadores a se tornarem mentores que inspirem mentes críticas e criativas.
Apelamos aos comunicadores para que usem plataformas para amplificar vozes, para mostrar os rostos e a riqueza dos povos e comunidades, e não para manipulá-los.
Aos cidadãos: não deixem que outros ajam por vocês. Porque a transformação está em suas mãos.
8. Um apelo ao compromisso colectivo
O paradigma da educomunicação é um convite para transformar nossas sociedades a partir da base, promovendo uma cidadania crítica, ativa e inclusiva. Este manifesto é um convite para transformar cada escola, cada universidade, cada lar e cada comunidade em um laboratório de cidadania ativa. Convocamos governos, organizações, educadores e cidadãos a, juntos, adotarem a educomunicação como abordagem e estratégia central para enfrentar os desafios do nosso tempo com esperança e construir um futuro melhor para a América Latina.






